Apresentação

O fio de água do texto foi concebido como um espaço para, por, com, sobre, ao lado de Maria Gabriela Llansol, escritora nascida em 1931, em Portugal, no decurso da leitura silenciosa de um poema.

Desfiemos:

O fio para _______ deseja homenagear esse corp´a´screver, que chegou a Belo Horizonte, em 1992, com Lucia Castello Branco, e aqui passou a acompanhar seus alunos da UFMG, professores, psicanalistas, artistas, compositores, poetas e vagabundos.

O fio por _______ deseja abraçar sua causa amante, acreditando, junto a Llansol, tal como ela escreveu em carta a Eduardo Prado Coelho, que os escritores do seu ramo, já conhecidos ou ainda no começo, aqui e no Brasil, vão ter de pensar no modo como criar um espaço de vida, que não seja marginal a nada, mas um lugar real de escrita e de leitura.

O fio com _______ deseja o encontro inesperado do diverso, deixando ecoar as ressonâncias do texto llansoliano, no Brasil.

O fio sobre _______ deseja criar um espaço para textualidades outras, que se escrevem em sobreimpressão, compondo com rigor uma nova geografia.

O fio ao lado de _______ deseja acompanhar a paisagem llansoliana, vislumbrada por aquela que, em 4 de julho de 1998, nos declarou: começais a vir, dando-me companhia que eu por nada trocaria. É o cume do jardim que o pensamento permite,

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Conversas com Llansol
Iniciamos, a partir desta semana, uma outra série de textos em nosso fio de água. A ela demos o nome de “Conversas com Llansol”, seja porque gostaríamos de manter, de alguma maneira, o tom de intimidade e a espessura de afeto dos textos da série “Por que amo Llansol”, seja porque muitos de nós gostarão de lembrar, aqui, as intensas conversas que tiveram, tantas vezes, com Maria Gabriela Llansol, seja ainda porque sabemos que os textos, em sua singularidade, muitas vezes conversam entre si, convergindo, se não para um mesmo destino,  para o que Llansol chamaria de “continuidade de problemática”. Assim, a série que hoje se inicia convida aqueles que o desejarem a enviar seus textos, textos de outros autores, imagens, canções, “migalhas literárias” que conversem com a Textualidade Llansol e com o momento que essa textualidade atravessa hoje, no mundo, e aqui, neste fio de água que corre em direção a “ensinar, dar testemunho por escrito, compor música para quebrar o saber, levá-la à soleira da porta para que ela receba o sol” — o sol do devir de seu nome. 

Conversas com Llansol



Iniciamos, a partir desta semana, uma outra série de textos em nosso fio de água. A ela demos o nome de “Conversas com Llansol”, seja porque gostaríamos de manter, de alguma maneira, o tom de intimidade e a espessura de afeto dos textos da série “Por que amo Llansol”, seja porque muitos de nós gostarão de lembrar, aqui, as intensas conversas que tiveram, tantas vezes, com Maria Gabriela Llansol, seja ainda porque sabemos que os textos, em sua singularidade, muitas vezes conversam entre si, convergindo, se não para um mesmo destino,  para o que Llansol chamaria de “continuidade de problemática”.
Assim, a série que hoje se inicia convida aqueles que o desejarem a enviar seus textos, textos de outros autores, imagens, canções, “migalhas literárias” que conversem com a Textualidade Llansol e com o momento que essa textualidade atravessa hoje, no mundo, e aqui, neste fio de água que corre em direção a “ensinar, dar testemunho por escrito, compor música para quebrar o saber, levá-la à soleira da porta para que ela receba o sol” — o sol do devir de seu nome. 

Por que amo Llansol

Por que amo Llansol: 

porque leio o lápis – e o raio se faz

porque distinto o verso – há quase um livro

porque com o coração no punho – escrevo

porque no começo do livro – já é precioso

porque há ervas, daninhas, e pregos – mas há legentes também

porque sinto romance – quando o sol não morre

porque amo o cão – e o homem, próximo, também

porque temo o inquérito, por sua verdade derradeira – mas sou muita confidência

porque o mal, embora errante, jaz – assim como o instante, também

porque causas – e constitui, junto, o meu ser

porque um beijo será dado – sempre mais tarde, na hora última

porque jogo com liberdade – e sem regras é mais que jogo: é vivo

porque, amigo ou amiga, só procuro – o curso do silêncio

porque quero ser – para além da sebe

para além do ser – que sou

para além do branco – que é seu

texto que amo

porque há –  

sem razões para amar.

[Liana Portilho – julho, 2012]

Por que amo Llansol

De dentro da bacia de prata carregava a tinta azul que encobria meu rosto matriz

 

a impregnar lençóis brancos, a parede branca e o outro que encontrasse. Uma mancha desforme impressa. Borrão azul e identidade.

 

Llansol ofereceu-me uma toalha dizendo: Limpa a tua face.

 

Eu disse-lhe: não é chegada a minha hora.

 

- Há uma única diferença entre o beijo e o poema.  O beijo pode ser dado mais tarde,

O poema                                                           . É de hoje que se trata.

 

do aparato dentário para a mordida, que contenha o quente do suor.

da palavra escolhida na palavra herdada, do anúncio nos olhos da denúncia,

a confiar-se numa fina abertura do tecido mesmo no imenso da terra.  deste sim. em pequenas letras,

que traz para perto do corpo o animal a nascer.

Só o encontro escreve poemas,

dá forma ao abraço do aéreo,

e ao beijo de amanhã.




                                                                       por Angela Castelo Branco

O devir poético do amor: margens de silêncio e escrita em Maria Gabriela Llansol

No último dia de maio deste ano de 2012, ocorreu, na Faculdade de Letras da UFMG, mais uma defesa de dissertação sobre a obra de Maria Gabriela Llansol. Às 10 da manhã, sob o céu azul do outono, estendeu-se a toalha branca com flores e frutas. E ali, com Fernanda Gontijo, brindamos a alegria do amor sive legens.
Postamos aqui o texto de apresentação da dissertação,  de Fernanga Gontijo, o texto de uma das professoras da banca, Vania Baeta, e o texto da orientadora, Lucia Castello Branco. Maria Inês de Almeida, outra das professoras da banca, não levou um texto escrito, mas a pujança de um comentário tecido em viva voz.

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Por que amo Llansol

por Carlos Batista

Porque amo Maria Gabriela Llansol, estive ouvindo Arnaldo Antunes, “Que me continua”, e deixei o som mais alto e andava até o jardim onde via que o arbusto dos gatos foi podado por um jardineiro que deveria ter certa delegação do síndico para isso – e comecei a entrever uma forma de potestas, se potestas pudesse ser aqui entendido como aquilo que se está autorizado a fazer socialmente. E essa figura do direito romano, que faz par com auctoritas, pensava ouvindo, inclusive uma buzina de vendedor de algodão-doce que entrava no ritmo da música, que essa, aliás essas figuras não conviriam ao legente, pelo menos ao legente que dê ouvidos às palavras de legente do José Augusto Mourão: “Sabe-se que se é legente quando o júbilo de existir e o ler se tocam.” Penso então que tais figuras remeteriam a palavras de ordem, a letras de câmbio, a uma língua imposta, língua presa que fomenta a impostura.  Nessa impostura, diria, nessa impostura reativa, pois reage ao crescimento, reage à expansão dos ramos, penso, não há vis existendi, não há potentia agendi. Essa língua com impostura não convém a que o legente a continue, se o legente estiver em busca de leitura desejante.

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Por que amo Llansol

por Janaina de Paula Costa

“Eu não tenho tesouros, só incumbências”.

Incumbida da tarefa deste pequeno texto, não renuncio e sou invadida pela pergunta:

“Quem precisa que um ramo entre na sua vida?”

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Por que amo Llansol

Estive discretamente a dizer

             porque amo Maria Gabriela Lansol

 

Fiel à letra, escrevo. Fiel ao amor, “mesmo se o corpo com isso haja de sofrer”, pois que o amor, hoje, é palavra mal-dita, escrevo. O amor, amorte, a tentativa de dizer a última palavra, atraída pela ausência desse encontro, mas também pelo toque, feito sopro, da lembrança de um sonho inteiro.

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Por que amo Llansol

Por Que Amo Maria Gabriela LLansol

por Vania Baeta

           

            Há quase quinze anos. Estava finalizando o curso de psicologia e cursava, então, a última disciplina — “Psicanálise e Linguagem” — ministrada pela Profa. Leila Mariné. Nada no horizonte parecia ter consistência de sentido para meu corpo, para meus olhos. A psicanálise, sim, havia chegado como uma redescoberta estranha: o estranho que nos aponta a saudade de casa. Mas, mesmo assim, as leituras, com as quais me deparava, não condiziam com um a mais ou o além necessário para a gravidade do que estava em questão, seu corpus. Nada me dizia que o caminho seria transitável. Lembro-me: a restrição da alma, se isso for possível. Não era sequer angústia, apenas pobreza. Quando a pobreza perde a graça de seu encontro fortuito com o recurso; quando a pobreza, em seus andrajos, panos sujos de chão, não estende sua mão ao mísero pão que surge. Não, não era bem isso, nem menos do que isso, porque já seria muito. Não, não era nada, porque já seria muito, porque cada palavra escrita aqui já seria e muito. Era o baço: meus olhos embaçados sem cansaço.

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Por que amo Llansol

Belo Horizonte, 5 de abril de 2012

 

Querida Gabriela,

 

é noite. É sempre noite quando te escrevo.  Acho que é a primeira vez que te chamo assim: Gabriela. Sempre te chamava de Llansol, lembra?  Você gostava que fosse assim, acho que por causa do meu sotaque, pois, na minha língua dos trópicos, acentua-se, sem qualquer esforço, o “sol” de seu nome. Devaneio um pouco, eu sei, mas como você mesma me disse uma vez, meu “pensamento vem sempre à tona de água”.

 

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